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Domingo, 27 de Abril de 2008

Exposição apresenta grafite como linguagem artística e leva a arte de rua para dentro do cubo branco

Mostra gratuita do grupo Grafitecidade será aberta no CCBNB-Fortaleza, na próxima terça-feira, 29, às 19 horas

O Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza abre a exposição coletiva “Graphein na Cidade”, na próxima terça-feira, 29, às 19 horas. Participam da mostra grafiteiros e artistas de rua do grupo Grafitecidade: Leandro Alves, José Carlos, Ely Fabrício, Edenísio da Silva, Leonardo Mendes e Tanayana Teles. Gratuita ao público, a exposição fica em cartaz até 25 de maio deste ano.

Hoje o grafite é considerado uma linguagem artística que, como prática de intervenção urbana, na maioria das vezes tem o intuito de interagir com as pessoas nos espaços da cidade, divulgando uma idéia. O objetivo dessa exposição é realizar uma interação entre a arte de rua e a arte de galeria, levando o grafite para o interior do cubo branco (ou espaço expositivo), mas também chamando o espectador para fora dele.

O grupo Grafitecidade tem atualmente nove integrantes, que já vêm trabalhando tanto a linguagem como a pesquisa artística. Alguns integrantes do grupo desenvolvem trabalhos sociais, utilizando a arte-educação como metodologia pedagógica em favor de melhores condições de vida nas periferias da cidade.
Esse trabalho é desenvolvido no projeto Crescer com Arte, da Fundação da Criança e da Família Cidadã (Funci), da Prefeitura de Fortaleza. “Acreditamos que o grafite é um jornal da rua, onde as informações são reais”, afirma Leandro Alves.
 
Breve história do grafite
O grafite existe desde o início da humanidade e é o pai das intervenções artísticas urbanas e um modo de expressão da arte contemporânea. A origem do grafite começa com os chamados homens das cavernas, que já registravam, por meio de desenhos e pinturas rupestres, suas observações, emoções e pretensões de rituais e caças no seu cotidiano.

A palavra grafite vem do italiano “Graffiti”, que é o plural de graffito. Graffito significa em latim e italiano “escrita feita com carvão”. Grafite vem da palavra graphéin, que em grego significa “escrever”. Grafite também é o nome que se dá ao material de carbono que compõe o lápis, de onde se conclui que grafite tem tudo a ver com “escrever com carvão”.

Grafite é um termo tão antigo quanto a própria cidade de Roma. Os romanos em sociedade já tinham o hábito de escrever, com carvão nas paredes, manifestações de protestos, palavras proféticas, ordens comuns e outras formas de leis e acontecimentos públicos como se fossem mensagens em cartazes.
Alguns grafites podem ser vistos até hoje nas catacumbas de Roma e outros sítios arqueológicos italianos, como é o caso da cidade de Pompéia, sepultada pelas cinzas e larvas do vulcão Vesúvio. A cidade se moldou e seus grafites servem de registros para comprovar que a arte de protestar e transmitir mensagens nas paredes e centros urbanos é um costume bem anterior a nossa sociedade.

Desta forma, os rabiscos e gravações feitas nos dias atuais em carteiras escolares, bancos de praça, banheiros e até mesmo em muros de ruas, que são chamados pelo senso comum de pichação, podem ser considerados grafite, haja vista que registra, de forma consciente ou não, a existência de seres humanos em seu contexto social. Até a década de 1960, antes de surgir no mercado a tinta em spray, o grafite era escrito com piche, um material de difícil remoção, fato que originou o termo ‘pichação’.

No final da década de 1960 e início dos anos 1970, jovens novaiorquinos do bairro do Bronx experimentaram esta forma de arte, mas dessa vez sem o carvão e sim com a tinta em spray, criando novos diálogos através do grafite – um grafite mais colorido e técnico, tanto visualmente quanto no conteúdo de mensagens que eram passadas.
Há duas teorias que explicam a origem dos grafiteiros modernos. Muitos consideram que o grafite surgiu com o hip-hop, uma cultura originária nas periferias das grandes cidades que uniu o rap (música muito mais  falada que cantada), o break (dança robotizada)  e o grafite (artes plásticas do movimento cultural).

Em Nova Iorque, era comum que moradores de guetos excluídos dos eventos da cidade fizessem festas de rua conhecidas como “bailes black”. Em geral, os participantes dessas festas eram membros de gangues que representavam e defendiam seus bairros.

Havia mais rivalidade entre uma gangue e outra do que a própria proteção dos bairros. Para haver comunicação entre eles, escreviam letras ilegíveis e desenhos incompreensíveis (uma espécie de código secreto) nos muros dos guetos. Esse código evoluiu para a arte e ganhou o mundo.
 
O grafite no Brasil
Grafitar é hoje uma palavra de ordem. Muros, outdoors e paredes exibem personagens estranhos, figuras de histórias em quadrinhos e outras com muita arte, graça e expressão do caos dos centros urbanos.

No Brasil, as manifestações artísticas e populares começaram na década de 1970, com a frase “Abaixo a ditadura” e “Celacanto provoca maremoto” – esta, uma referência ao seriado japonês de ficção científica “National Kid”, sendo celacanto um imenso peixe pré-histórico.

Em 1976, a introdução do grafite em São Paulo coube a Alex Vallauri, artista de nacionalidade italiana, que vivia em Santos desde 1964, desenhando e pintando prostitutas nas proximidades do porto daquela cidade litorânea.

Na capital paulista, Vallauri grafitou silhuetas de figuras com tinta-spray, sobre matrizes de papelão vazado (hoje a técnica é conhecida como Stencil), sempre levando em conta a repetição e saturação da mesma imagem, características da arte pop. Com essa inovação, Vallauri abriu caminhos para uma legião de artistas que substituíam as telas pelos muros e paredes da cidade como suporte para suas obras.

O grafite enquanto linguagem artística se contrapõe aos outdoors, não cega o espectador nem o leva à possível condição de mero consumidor. É antes de tudo um convite a um encontro de diálogos. Contudo, participar e entender esses diálogos são fundamentais no meio ambiente construído pelo homem. Afinal, muros e espaços urbanos são partes integrantes de nossa vida.

Esta perspectiva une uma ação socioambientalmente mais responsável a uma crescente preocupação com a qualidade plástica e informativa daquilo que se grafita. Criativo ou engajado, anárquico ou poluidor, marginal ou vanguardista, o grafite se impôs definitivamente, conforme dizia Vallauri.

Serviços
Centro Cultural Banco do Nordeste-Fortaleza
Rua Floriano Peixoto, 941 – Centro
Fone: (85) 3464.3108)

Fonte:
Centro Cultural Banco do Nordeste
Da Redação